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Archive for the ‘Oração intercessória e a resistência à argumentação racional!’ Category

“Vou orar por você!”

Essa é uma das frases mais recorrentes ditas por religiosos de todos os tempos. Não importa a gravidade da situação – pode ser de um linfoma até a perda das chaves de casa; a sentença é: “vou orar por você…”

Tragédia, doença, problemas financeiros, casamento desfeito, micose. A teoria é de que para deus tudo é possível, não importa o quão improvável seja: ele vai mudar seu plano divino e ajudar o crente por mais supérfluo que seja o pedido.

Mas será que de fato, isso é real? A oração intercessória funciona? Ela é atendida? Pesquisas com o objetivo específico de comprovar-lhe a eficácia foram realizadas, obedecendo a critérios rigorosos, com atendimento ao padrão de experimentação “duplo cego” e em ambientes controlados.

Os resultados foram todos negativos. Não se obteve melhora alguma no quadro das pessoas para as quais se direcionou qualquer oração. Para que não se coloque em dúvida a honestidade de tal experimento, esclareça-se que o mesmo foi realizado pela Fundação Templeton, conhecida instituição de cunho religioso.

A Fundação Templeton, no entanto, afirmou que, mesmo após o fracasso do projeto, continuaria a realizar experimentos com o intuito de provar a eficiência da oração. É um pouco como fazer as mesmas perguntas esperando respostas diferentes, não? Mas, se observarmos, não é exatamente isso que o religioso faz? Ou seja, mesmo diante do óbvio, cultiva as mesmas superstições como um atavismo anedótico?

As tragédias cotidianas só reforçam as evidências de que a oração é improfícua e a crença é irrelevante. Vivemos agora mesmo, no Rio de Janeiro, uma devastação sem precedentes que ocasionou a morte de quase 700 pessoas e de pelo menos 20 mil desabrigados. Famílias inteiras pereceram, crianças se afogaram e até igrejas desabaram.

Todavia, posso apostar que ao chegarem as primeiras notícias da tragédia, grupos religiosos se mobilizaram para correntes de orações e vigílias para o mesmo deus que, em sua onisciência e onipotência, poderia tê-la impedido. Os caminhos divinos são realmente inescrutáveis…

É sabido que a oração é o método mais comum de se alcançar o que o religioso chama de “experiência com deus”, ou algum tipo de contato com o que seria divino. Mas, se mesmo experimentações patrocinadas por instituições de fundo religioso evidenciaram, sem deixar margem a dúvidas, que a oração é inócua e jamais se conseguiu relacionar oração a quaisquer resultados; por que então o genuflexório é tão utilizado?

Parece inequívoco que o fenômeno da oração é fundamental na propagação e na mantença da crença. A oração produz, no religioso, a falsa pretensão de que ele realmente pode ter controle sobre fatos incontroláveis. Ao mesmo tempo, produz em seu inconsciente uma espécie de validação da superstição, ajudando assim, a justificar a existência e o poder de um ente que nunca se viu e do qual não se possui qualquer resquício de evidência. O falecido comediante George Carlin afirmava com muita propriedade que “rezar para o sol ou rezar para Deus resulta na mesma proporção de pedidos atendidos”.

Por outro lado, é compreensível que a maioria dos cristãos se sinta aviltada ou até ofendida no momento de contradita e de desconstrução racional da crença e, por conseguinte, da oração. Afinal de contas, você está mostrando ao religioso que ele não fez mais do que viver uma ilusão durante boa parte de sua vida. Isso é demais para qualquer um. Pior ainda, o religioso fica atônito ao se deparar com fundamentação baseada em conhecimentos válidos, ao descobrir argumentos que jamais ouvira,  dando-se conta,então,de que pode jogar toda aquela argumentação claudicante de escola dominical repleta de “se” e de “mas” sobre outros crentes, mas que não funciona com alguém que possui “legítima” objeção às suas crenças e cultura suficiente para rebatê-las.

Isso acontece porque simplesmente não consegue sair da parede quando  colocado em uma posição de “não existem evidências e tudo isso é muito improvável”. Essa oposição é algo que a maioria dos cristãos não quer enfrentar em seu dia-a-dia, vez que crer é mais fácil do que pensar. O questionamento atinge a uma minuciosa programação feita com o intuito de gerar o oposto: obediência, respostas prontas, raciocínio circular, inabilidade de pensar por si mesmo. Se analisarmos bem, a bíblia poderia até ser considerada um moderno instrumento de conversão, pois você não tem de mexer dois neurônios sequer. Basta só aceitar o que está escrito sem titubear, vem tudo pronto. É claro que foi escrita por homens que, além de crer em deus, também acreditavam que a terra fosse achatada e mal sabiam separar seus excrementos da comida…talvez isso seja relevante. Para mim é, para você não?

De fato, é incômodo para os religiosos lidar com alguém que não comungue com suas crenças por mais absurdas que sejam. Os evangélicos, por exemplo, denominam quem não é cristão como pessoas “do mundo”. Seriam os crentes, então, alienígenas? Certamente não, mas é como se eles mesmos considerassem assim, numa tentativa de se desvencilharem das coisas e das atitudes mundanas”. É bem verdade que nunca conheci um só cristão, que rejeitasse a coisa mais mundana existente: o dinheiro.

É fácil reparar isso na medida em que os cristãos criam nichos separados para não ter que conviver com tais argumentações. Criam música “pop” cristã, filmes cristãos, romances cristãos, lojas para cristãos e até restaurantes para cristãos. Nos EUA, existem até “páginas amarelas” cristãs, para que se possa contratar um encanador cristão (talvez ele remende o vazamento com uma oração, sei lá).

Mesmo as objeções mais razoáveis geram desconforto. Quando se pergunta a um adulto cristão se ele realmente acredita que Jonas permaneceu três dias dentro de uma baleia, a resposta, em sua abissal maioria, é: “espere aí, a bíblia não fala em baleia, e sim em peixe grande”. Penso por um minuto em algo sarcástico para dizer, mas  refuto seriamente com um gigantesco: “E DAÍ!?!?!?”. Um peixe grande faria mais sentido?!?!?! Note que a estratégia imediata é a fuga da pergunta, pois qualquer resposta, que não fosse “não”, seria patética.

Da mesma forma, são costumeiros “testemunhos” do gênero “meu pai estava muito doente, fizemos uma corrente de oração, e ele melhorou graças ao meu deus vivo”. Podemos depreender então que, na interpretação do testemunho acima, deus curou o pai; logo, ele existe e é bom. Ora, quando perguntamos ao mesmo religioso se, quando uma pessoa está bem e, de repente, morre, isso significaria que deus ou é mal ou não existe; ele não titubeia em afirmar que isso apenas acontece. Como assim?

No afã de justificar a crença, a razão e a lógica são sempre secundárias. Não me recordo de nenhuma outra situação do dia a dia que mereça tal prerrogativa, até mesmo por parte do religioso. Seria mais do que justo então, que se cobrasse a quem afirma a validade de orações, vigílias, correntes, jejuns e afins, que demonstre, 1% que seja, da eficácia de tais rituais.

Na verdade, já passou da hora de os religiosos começarem a ter a mesma disposição para ouvir os argumentos plausíveis e genuínos de quem não compartilha com suas crenças, como a que possuem, para pregar seus regramentos e conceitos morais da idade do bronze e,nesse diapasão, compreender também que,quando se deseja ajudar a uma pessoa,deve-se ajudar de verdade, pois a oração é tão somente,o melhor meio de não se fazer absolutamente nada por ela. Nada mais que isso.

 

Humberto P. Charles

 

TRADUÇÃO:

“Se você pudesse argumentar com pessoas religiosas, não haveria pessoas religiosas.” [HOUSE]

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